Para onde olham nossos olhos

por valeriamidena em June 20, 2011

Arthur Bispo do Rosário :: ‘Manto da Apresentação’ :: sem data

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Presume-se que Arthur Bispo do Rosário tenha vivido por cerca de 80 anos – não se sabe exatamente o ano de seu nascimento. Desses, 50 foram vividos como interno da Colônia Juliano Moreira, antigo manicômio carioca, sendo 25 ininterruptamente, até sua morte em 1989.

Negro, neto de escravos, pobre e migrante, tentou sobreviver no Rio de Janeiro como servente, caseiro, porteiro de edifício, funcionário da antiga Light e segurança de políticos, até ser sentenciado como “louco do tipo esquizofrênico paranóico”. Num contexto marcado pela ascensão do fascismo – inclusive no Brasil, onde a então atuante Liga Brasileira de Higiene Mental adotava uma política higienista, racista e xenófoba –, foi submetido a lobotomia, eletrochoques e castigos por uma psiquiatria que tratava de mutilar e excluir os que incomodavam a ordem reinante.

Sua obra veio a conhecimento público, em seu conjunto, apenas após sua morte – e o que se viu foi um legado artístico de imensa originalidade, profunda criatividade temática e diversidade de formas e materiais, trazendo à luz uma vida até então desconhecida e cujo entendimento passa pela arte, e não pela loucura.

Apropriando-se conscientemente de seu exílio como forma de viabilizar sua auto-expressão, Bispo do Rosário transformou em arte todo e qualquer recurso material que teve à mão, demonstrando de maneira incontestável a capacidade inata que tem o homem de criar – a despeito de dificuldades técnicas, materiais, de conhecimento teórico ou de história pessoal. Pelas mãos do artista, garrafas, pentes, moedas, sapatos, canecas, colheres, vassouras, pedaços de tecidos (tirados de lençóis), linhas (para bordar, proveniente do desmanche de uniformes dos internos), deixavam sua função original para se tornarem veículos de sua obsessiva busca por ordenamento, estrutura e ritmo do tempo e do pensamento.

Nas palavras de Louise Bourgeois, “Bispo do Rosário tinha a capacidade de incorporar um objeto de sua vida de confinamento e transformá-lo num objeto simbólico de sua auto-expressão, mistério, beleza e liberdade”. Deparar-se com qualquer desses objetos é uma experiência invariavelmente carregada de grande emoção, pois, não bastasse sua desconcertante beleza plástica, neles reconhecemos formas, palavras e significados que dialogam silenciosamente com a alma humana, despertando sentimentos universais e questionamentos existenciais.

Questionamentos, sim. Pois ao olhar para dentro de si, ouvir sua própria alma e se permitir dar vazão à sua essência criativa mesmo frente a imensas adversidades, Bispo do Rosário produziu beleza e colocou-se num lugar da História que a psiquiatria jamais alcançará. E então nos perguntamos para onde estão voltados nossos olhos, para o que estão atentos nossos ouvidos e por que, mesmo quando não há qualquer adversidade, tanto relutamos em deixar brotar a essência criativa que cada um de nós traz, de forma única e singular, dentro de si.


P.S.
Em 1982, foi inaugurado no Rio de Janeiro o Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea – http://www.rioecultura.com.br/instituicao/instituicao.asp?local_cod=119

Em 2007, a CosacNaify publicou o belíssimo livro “Arthur Bispo do Rosário – Século XX”, organizado por Wilson Lázaro, com textos de Emanuel Araújo, Louise Bourgeois, Paulo Herkenhoff e Ricardo Aquino, e atualmente fora de catálogo.

5 comments

valéria, ADORO o trabalho dele.
beijos

by vivian de cerqueira leite on 6-24-2011 at 22:26:10. Responder #

Valeria,conheci o trabalho de Bispo do Rosário no início dos anos 90 em Roma, e foi uma grande descoberta para mim. Vi todas as mostras que pude deste artista incrível, que teceu o seu manto sagrado durante anos, fazendo um inventário de tudo o que viu por aqui, para transportar para a dimensão por ele imaginada. Muito bom seu blog, parabéns.

by Lee Swain on 8-18-2011 at 00:52:59. Responder #

Oi, Lee, também acompanho tudo que me é possível sobre o Bispo do Rosário. Sua obra é uma da mais contundentes que já vi, e não há ocasião em que, ao ver/ler algo dele ou sobre ele, eu não me emocione profundamente. Uma pena que ainda seja tão desconhecido do grande público, e que ainda existam questionamentos sobre o verdadeiro valor de seu trabalho, dado seu distanciamento psíquico do “mundo real”. (???!!!) Fico feliz que tenha gostado do blog – apareça sempre, sua contribuição será sempre valiosa! E obrigada pelo carinho.

by valeriamidena on 8-18-2011 at 18:22:49. Responder #

vá, que alegria ver bispo do rosário por aqui também. mamãe, sempre inquieta com suas pulsões pelos intensos e diversos modos de expressão, moda, decoração, pintura e desenho, avessa a tecnologia,
pediu que eu pesquisasse sobre ele. o resultado está traduzido em poucas peças incríveis que produziu. belo flash back!!!!

by cristiane araújo on 8-27-2011 at 00:17:17. Responder #

Tiane, uma pena eu conhecer tão pouco do trabalho de sua mãe. Com essa informação agora – a paixão comum pela obra do Bispo do Rosário – acho que precisamos corrigir isso. Onde estão essas peças (e as outras tantas)? Por que não torná-las públicas? Vamos pensar sobre isso? Beijo grande e obrigada pelo carinho de sempre!

by valeriamidena on 8-27-2011 at 12:14:47. Responder #

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